“É uma apendicite crônica e você só tem três minutos de vida”. Escolhi morrer catando as pulgas da minha gata-gorda. Imagine só: gata de madame das unhas cortadas, com xampú de leite no pêlo (pêlo com chapeuzinho sim senhor), vacinas em dia, dentes escovados, ração light e água filtrada. Imagine só… Pulgas. “Você sabe o que é uma apendicite?” fiz que não com o quinto oitavo de cabeça que conseguia mexer. “Você sabe aonde fica o apéndice?” não. Saiam tubos coloridos por todas as extremidades. Sangue pela cabeça, pelo pulso, pé, pescoço, barriga. Soro pelo olho, nariz, joelho. Aftaminas, menopteudóclicos, azeudofuligem pela boca. Tubos vermelho mamão, opaco esbranquiçado, salmão bebê, roxo pink, amarelo banheira. Pela janela entrava o Sol, o cocô de cachorro, a senhora fazendo caminhada, o sapato preso no poste. Na televisão o último capítulo da novela. Comercial. Destino cruel.